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  • Lindoberg Campos

Bonito, a cidade que faz história (contém ironia)


Cada dia que passa fazemos história, mas é uma história de atraso, descaso, destruição e campanha eleitoral de quatro em quatro anos sem o mínimo debate sobre o que queremos para o futuro. Progresso e qualidade de vida podem caminhar com preservação histórica, sim. Basta querer. Mas querer é uma coisa que não existe em parte da população bonitense.



Qual a responsabilidade da iniciativa privada na preservação dos edifícios históricos de nossa cidade? Essa pergunta deve ser levada muito a sério. Geralmente, sempre cobramos do poder público políticas de manutenção e preservação do nosso patrimônio artístico, histórico e cultural. Natural que seja assim, afinal o Estado (poder público que se refere no Brasil aos municípios, Estados e União), enquanto ente maior de um sistema que regula as relações humanas na sociedade, deve criar regras, leis e mecanismos de proteção daquilo que decidimos como importante para nossa história.

No entanto, como proceder quando um patrimônio de importância histórica está nas mãos da iniciativa privada, isto é, quando ele pertence a um cidadão comum? Aqui precisamos refletir sobre esse ponto desde duas perspectivas. A primeira seria um conflito de interesses. Ao passo que o Estado não pode regular toda a vida do cidadão, pois aí seria uma invasão da liberdade, cabe a ele (Estado) determinar modos de atuação do próprio cidadão. Nesse caso, se um prédio de interesse histórico pertence ao cidadão privado, compete ao Estado buscar uma maneira para que o interesse que esse cidadão tem sobre o edifício não destrua a história coletiva da sociedade.

Falo isso porque virou coisa comum em Bonito destruir-se casarios e edifícios antigos por pertencerem à propriedade privada e deste modo o Estado não poder fazer nada. Aqui entraríamos no segundo ponto da perspectiva. Em sociedades liberais com alto padrão de qualidade de vida e cultura (que, aliás, sempre desejamos ser iguais), a interferência do Estado é mínima, mas há um compromisso e uma consciência do poder privado na sua responsabilidade pela preservação e manutenção dos bens de interesse histórico. Ora, sabemos da ineficiência do poder privado e público no Brasil nesse aspecto. Nenhum dos dois sabem o que fazem. Isso só reflete nosso nível de civilidade perante outras nações mais poderosas. Querer que os donos de imóveis de interesse histórico em Bonito tenham consciência da sua importância e prezem pela sua conservação é querer demais? Não deveria ser assim.

Quantos prédios históricos, pertencentes à propriedade privada, foram destruídos em Bonito? Perdemos a conta, inúmeros. Muitos foram destruídos em nome do progresso, do dinheiro, da ganância. Só esqueceram que sendo uma cidade histórica e turística, Bonito deveria preservar seus prédios históricos, sejam públicos ou privados. E preservação não quer dizer que deixaremos ali um prédio velho caindo aos pedaços. Existem inúmeras formas de preservar e explorar o prédio para fins econômicos sem que isso seja a sua destruição total.

Olhem para Ouro Preto-MG e seu casario colonial preservado; olhem para Olinda com suas casas e igrejas preservadas; olhem para o Recife antigo e sua integração entre história e futuro; observem Triunfo no sertão pernambucanos com seu centro histórico intacto. Todas essas cidades exploram a histórica economicamente e preservam seu patrimônio. Por quê em Bonito, cidade histórica de movimentos sociais de importância internacional, não pode ser exemplo também? Há inúmeros exemplos de como preservar nossa história e explorar sem destruir. O que falta em Bonito é consciência e muitas vezes vergonha na cara, para falar um português bem enxuto e direto.

Cada dia que passa fazemos história, mas é uma história de atraso, descaso, destruição e campanha eleitoral de quatro em quatro anos sem o mínimo debate sobre o que queremos para o futuro. Progresso e qualidade de vida podem caminhar com preservação histórica, sim. Basta querer. Mas querer é uma coisa que não existe em parte da população bonitense.




Casarão do século XIX pertencente a um ex-combatente na Guerra do Paraguai. Hoje, propriedade privada, jaz no limbo do esquecimento.

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