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  • Lindoberg Campos

Bonito já pode abrir curso de pós-graduação em destruição do patrimônio


Entre tantas notícias que nos atormentam nessa pandemia, uma parece nos trazer um alento. Sim, ao que tudo parece, e pelo andar dos acontecimentos, nossa cidade, Bonito, um pedacinho do céu num recanto do Brasil, como canta seu hino, já poderá abrir um curso de pós-graduação em destruição do patrimônio.


O slogan da administração municipal da cidade parece ter sido a melhor escolha porque condensa um traço identitário que afeta a todos moradores desse chão. Bonito faz história. Uma história de apagamento da sua herança cultural e arquitetônica. Basta caminhar pelas ruas de paralelepípedo e observar como os edifícios históricos que guardam em suas paredes nosso passado são aos poucos substituídos pelo progresso do porcelanato e pelo gosto dos prédios fálicos.

A vítima da vez do descaso com nosso patrimônio é a famosa coluna de São Pedro. Um edifício centenário que marca a passagem do século 19 para o 20. Um marco religioso e da cultura dos bacamarteiros.

As ruas, casas antigas, traçados e praças contam nossa história coletiva, são marcos simbólicos que passam de geração em geração criando laços de pertencimento e de compromisso que se transformam em responsabilidades éticas para com o passado e o nosso futuro. Ignorar nossa herança é simplesmente ignorar aquilo que somos enquanto sociedade e civilização.


A vítima da vez do descaso com nosso patrimônio é a famosa coluna de São Pedro. Um edifício centenário que marca a passagem do século 19 para o 20. Um marco religioso e da cultura dos bacamarteiros. Uma fronteira entre nossa história e memória coletivas e o porvir. Um prédio que já pertence à memória afetiva dos bonitenses. Há muito sabemos da necessidade de uma reforma estrutural. Sabíamos que era urgente uma intervenção para que esse marco não tombasse perante a intrépida exigência do tempo que a tudo corrói.


Todavia, o que se espera na reforma de um prédio histórico e de importância ímpar, como é o caso da Coluna de São Pedro, é que ocorra tudo dentro da mais estrita observância das técnicas de restauro e conservação, e não uma obra a toque de caixa feita sem nenhum compromisso. Quem hoje passa por esse marco histórico se depara com esse descaso e descompromisso que ameaça muito mais que o tempo.


Pode-se argumentar que a obra retomará ao fim os traços arquitetônicos originais etc. Pode ser que sim, ainda que se saiba que não; mas e se não for possível? Não é preciso dizer que essa obra é sim um risco ao patrimônio. Exemplos de obras erradas pululam pelo mundo sobretudo quando se referem ao patrimônio histórico. Mas o que esperar de uma sociedade que não preserva seu passado e sua história? Nada, absolutamente nada. Apenas consumidores vorazes de culturas alheias e zumbis que perambulam por estradas a vomitar falso conhecimento e orgulho mesquinho.


O problema não está no fato de fazer a obra, aliás, isso é um bom sinal que há pessoas que sabem da importância de uma intervenção. Mas que intervenção foi proposta ali? Há um especialista em restauro com capacitação técnica pra isso? Há arquiteto ou engenheiro com conhecimento em patrimônio histórico acompanhando a obra? Essas perguntas devem ser feitas antes de uma obra num prédio centenário como a Coluna. Muitas vezes uma obra sem acompanhamento pode gerar problemas maiores.


Já passou da hora de uma cidade que se diz histórica e turística possuir órgãos qualificados e com pessoal técnico para dar conta dessa demanda. Enquanto isso não ocorre vamos vendo nossa história escorrer por ralo abaixo e nos tornando cada vez mais especialistas em destruir nossa história.


De todo esse cenário dantesco há algo bom a se concluir: estamos nos tornando especialistas em destruir o patrimônio cultural e arquitetônico. Deste modo, creio que já podemos possuir um curso de pós-graduação nessa área que certamente será referência internacional. Seguimos fazendo história, Parabéns para nós.






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