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  • Lindoberg Campos

Dom Sebastião e a batalha de Alcácer-Quibir



Alcácer-Quibir, Marrocos, 4 de agosto de 1578.


Há exatos 442 anos se dava a batalha que marcaria definitivamente os rumos da história lusitana. A fatídica batalha de Alcácer- Quibir possui contornos impressionantes. É a partir dela que se marca o ostracismo do reino lusitano que após a morte de Dom Sebastião, rei português, vê-se obrigado a subordinar-se à Coroa castelhana, decretando o fim do brilho de um dos mais importantes reinos do período humanista.


A figura de Dom Sebastião torna-se personagem principal e controverso. Muitos enxergam em sua atitude de liderança nos areais marroquinos um ato insano e de loucura ao lançar-se numa guerra que desde o início se mostrara dispendiosa e sem fundamento.


Outros interpretam a ação do monarca como um ato de grandeza e heroísmo de um rei assentado sobre uma tradição de glórias e conquistas.


Qualquer que seja o campo de interpretação em que se encontre, não se pode negar que a batalha de Alcácer-Quibir refaz o cenário mundial geopolítico. Loucura ou grandeza, a morte do monarca lusitano é em si um ato histórico.


Ali nas densas areias quentes do deserto frutificou a mais impressionante mitologia que cruza tempos e espaços e repousa no agreste pernambucano a alimentar o sonho de inúmeros camponeses na espera de justiça e paz.


Conta a história que o corpo do rei Dom Sebastião nunca foi encontrado. Ali nascia a descrença na morte do rei e a esperança no mito do seu retorno para levar Portugal aos tempos de glória de outrora. Inúmeras histórias acerca da batalha foram escritas ao longo do tempo, cada qual construía a seu modo um cenário e justificativas diferentes.


Uma das narrativas mais famosa é Jornada de África, publicada em 1607. Foi escrita por de Jeronymo de Mendoça, participante da guerra ao lado do exército lusitano.


A imagem mais difundida da batalha, e provavelmente a primeira que se tem notícia, foi publicada na obra Miscelânea. De autoria atribuída a Miguel Leitão de Andrada, a obra data de 1629.


Também atribui-se a Leitão de Andrada a composição de um poema-romance musicado, escrito em espanhol (no séc. XVII era comum usar a língua espanhola, mesmo em Portugal, para a escrita oficial). Andrada muito provavelmente foi um participante do combate no Marrocos. O poema-romance tem sido muito usado pelos grupos de músicas antigas pelo mundo, gerando diversas versões e possibilitando o trabalho em sala de aula com a música, história e literatura. Nesse poema-romance são narradas as ações dos dois exércitos, português e árabe, com destaque para figura de D. Sebastião. Essa narrativa tem sua importância ímpar porque descreve, de forma lírica e épica, através de uma testemunha ocular, o teatro de operações.



Puestos están frente a frente (Postos estão, frente a frente) - Puestos estan frente a frente

Los dos valerosos campos:

Uno es dei Rey Maluco,

Otro de Sebastiano

El lusitano.

Moço animoso y valiente,

Robusto, determinado,

Aunque de poca experiencia

Y no bien aconsejado

El lusitano.

Quando los Moros sin cuenta

Su hueste la van cercando

Que pera uno de los suyos

Son mais deziocho tantos.

Ardiendo en fuego su pecho

Rabia por ponerlos mano,

Piensa que todos son nada,

Manda a pelea echar bando

El lusitano.

Brama que envistan los moros

Y el exercito contrario,

Ya se van llegando cerca

A ellos (dize) Santiago

El lusitano.

Dispara la artilharia,

La nuestra mal disparando,

Llueven balas, llueven muertes,

Setas y mosquetazos.


Empuxan picas los moros,

Ya huyen rotos rodando,

Los ventureros victoria

Pregonan con grande aplauso,

Que mataran el Maluco,

Y lo ba llevado el diablo,

Porque junto a su litera

Lo passaron de un balazo.

Y en la mora artilharia

Dos banderas se han ganado,

Con victoria tan pujante,

Que semejó a milagro.

Pero por peccados nuestros

La gozamos poco espacio;

Que a soccorrer retroguardia

La delantera ha parado.

Que por los lados ya todos

Es vanguardia nuestro campo.

Y con sangre de los muertos,

Está hecho un grande lago.

Todo lo anda el buen Rey,

Dando muertes muy gallardo,

La espada tinta de sangre,

Lança rota, y sin cavallo.

Que el suyo passado el pecho

Ya no puede dar un passo,

A George d’Albuquerque pide

Le dé su rucio rodado.

Daselo de buena gana,

Y el-Rev cavalga de un salto,

Mirale el-Rey como jaze,

De espaldas casi espirando.

Mas le dize que se salve,

Pues todo és roto en pedaços,

Y el-Rey se vá a los moros,

A los moros Sebastiano,

El lusitano.

Busca la muerte en dar muertes,

Busca la muerte Sebastiano el lusitano,

Diziendo: Aora es la hora,os

Que um bel morir, tuta la vita honora.



Que um bel morir, tuta la vita honora. (Que um bela morte toda uma vida honra), citação atribuída a Petrarca e, segundo a lenda, comumente usada por Dom Sebastião. Carrega a frase sua verdade inconteste no tempo; sua morte, ocultada nos areais marroquinos, foi a mais ampla quanto pode ser e permanece até hoje em sua lápide a duvidar de sua morte. Que venha Sebastião, num tempo e espaço imemoriais, mas que traga luz, paz e riqueza a um povo que ainda o aguarda!




Bonito, Pernambuco, 4 de agosto de 2020.

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